Entrevista com Jan Martí, de Blackie Books

Versão completa da entrevista com Jan Martí, publicada em agosto de 2010, no portal espanhol Público. Jan Martí é músico e editor. Voz e teclados do grupo Universidade de Barcelona. Recentemente, lançou junto com outros dois sócios Blackie Books, um selo editorial decidido a navegar nas águas incertas do mercado editorial armado com uma perspectiva própria.

O mundo editorial vive o presente com muito medo. A grande ameaça se chama Internet: e-book, pirataria, etc. Porém, também aparecem jovens editores educados numa relação amistosa com a rede como espaço para o intercâmbio. Paradoxalmente, talvez sejam eles os únicos capazes de salvar o livro físico.

Como vês o presente do livro?

Estes são tempos de grande incerteza nos quais estão sendo dadas como certas algumas idéias bastante prejudiciais. Por exemplo, existem livreiros que parecem pensar que sua tarefa no futuro será vender e-books nas webs de suas livrarias. Ou seja, pressupõem que desaparecerá o mais importante de seu trabalho: aconselhar, indicar um livro. Quando o melhor que podem fazer é inventar novas maneiras de fazer funcionar as livrarias potencializando precisamente essa função sua, que é tão respeitada.

Alguma proposta?

Tenho visto em algumas livrarias de Paris ou Buenos Aires que cada livreiro tem um cartão de uma cor e o prega aos livros que recomenda, explicando suas razões. Isso não é mais que um exemplo, porém indica o caminho a seguir: personalizar e humanizar o mais possível o mercado do livro, singularizar as propostas, resistir o quanto possível à padronização (até se recusando vender os livros que não se querem vender). É justamente nos tempos de crises e de ruptura que podem surgir as melhores idéias.

E qual é a tua visão sobre estes tempos?

A única coisa que assumo é exatamente o que a indústria quer evitar: a pirataria. A palavra soa mal, porém na realidade chama-se assim ao intercâmbio. Internet nasce precisamente para trocar. Na rede, as pessoas fazem coisas desinteressadamente pelos outros que nunca fizeram em sua vida. E uma das melhores coisas que se pode fazer com um livro é doá-lo, compartilhá-lo. Sou honesto: eu quero viver dos livros. Porém também quero compartilhar. Para mim, de fato, o editor é precisamente alguém que quer compartilhar algo com outras pessoas. Compartilhar um livro com pessoas com quem pode intuir e com pessoas desconhecidas. É muito importante poder presentear. Porém, para mim, um arquivo PDF não tem valor como presente. Outras coisas têm valor, mas não esse tipo de arquivo. Como poderia ser um bom presente digital? É o que estamos pensando agora. Queremos que seja possível presentear o que achamos que deve ser presenteado e que se possa vender o que se deve vender.

O intercâmbio na rede não prejudica os autores?

As pessoas convivem cada vez mais com o grátis e com o que vale a pena pagar, ainda que seja caro. É o que ocorre no âmbito da música. Os poucos discos que compram são os que ouviram em casa, mas gostaram tanto que desejam ter. Ter um disco como algo que se coleciona: aí passa ao objeto. E o objeto do disco é algo que não é música: é papel, cartão, etc. Porém, no caso do livro é diferente: um livro eletrônico não é nada parecido com um livro físico. Você pode observar um arquivo digital na rede e logo decidir comprar o livro.

E por que decides comprá-lo?

Porque um livro não é apenas informação, mas especialmente a forma como você recebe e lê esta informação. E essa forma é, essencialmente, um objeto. Um objeto que você pode apalpar, marcar, colecionar, emprestar ou onde pode espiar o final se não quiser ler todo ainda… O grande medo é agora o iPad porque você vê uma estante de madeira e com dois dedos pode levar um livro daqueles que estão lá. Todos os avanços do livro eletrônico consistem em que se parece cada vez mais com um livro físico: você pode passar a página com os dedos, pode pegar o livro de uma simulação de estante etc. Tudo é “como se”. Ou seja, o mesmo porém pior porque só é uma tela. E com os problemas típicos do e-book: por exemplo, quando amplias a letra o livro se redimensiona. E todo o trabalho do diagramador, essa harmonia que cria o diagramador e que se aprecia ainda que você não se fixe nela, se perde. Faz 30 anos que se tenta substituir o livro por outra coisa e não se consegue. Eu penso que é insubstituível. O grande mérito do livro eletrônico é que se parece um pouco. Tudo é muito estranho.

Que papel tem o editor quando todo mundo pode autoeditar-se?

É uma referência, um filtro de confiança. Portanto, para nós é tão importante não fazer nada por si só, que cada livro seja um projeto pelo qual apostamos a vida. O dia em que publicarmos um livro para preencher o catálogo isso terá acabado. As pessoas se vinculam com uma editora quando vêem que os livros são bem feitos e existe uma proposta. E se você como autor pode fazer parte disso, por que editar só? Só morrem as editoras de qualidade duvidosa, de livros mal feitos e de editores sem idéias. Todos caem sobre seu próprio peso.

Cada vez se tratam mais os livros como se fossem produtos de uma padaria industrializada: fabricação industrial com pouca imaginação, distribuição massiva, sobreprodução e curtíssima duração no mercado. Indignáva-nos que deixassem morrer os livros e que todos viessem pela via da padaria industrial como único caminho possível. Assim, a idéia de Blackie Books foi fazer suculentos donuts que fossem sempre diferentes, que fossem ternos e doces e macios, que o fossem durante muito tempo, e que estivessem sempre à venda e não tivessem data de validade. Nós gostamos de cuidar do design, o livro como objeto, o toque e o cheiro de nossos livros, as ilustrações, as traduções, a impressão.

Como são os livros de Blackie Books do ponto de vista físico, material?

Nos livros usamos capa dura com lombo plano. É algo que só havíamos visto nos livros ilustrados que líamos quando crianças. Cuidamos muito do toque: talvez seja o único livro no mercado com papel fosco puro. São maneiras de conseguir que o próprio livro lhe peça que o trate bem. Também acrescentamos informações inesperadas em lugares inesperados: chegamos a fazer prospectos desdobráveis com biografias, um mapa ou um pôster. Outras coisas que queremos explicar estão escondidas nos livros: por exemplo, de onde vem o nome da editora. Blackie era a cadela de um de nós. Tinha uma pretensão de imortalidade muito forte, morreu aos 18 anos. É nossa idéia da editora e dos livros, foram feitos para durar.

E quanto à linha? Existe alguma linha, alguma “coerência”, algum critério?

Na declaração de Blackie Books, dizíamos: “existem muitas coisas que gostamos. Mas, a maioria de nós não gosta de saber por que e analisá-lo poderia ser uma forma de enganar-se. Às vezes, quanto menos sabemos por que gostamos de uma coisa, um sabor, uma história ou uma imagem em nossa mente, mais nós gostamos. Então, provavelmente esse traço intangível que têm em comum as coisas que gostamos seja uma das chaves para que nos gostem. Por isso, nosso critério, nossos gostos, nossas emoções, sempre ficam um pouco do lado do desconhecimento, um pouco fora da consciência. Temos chamado Blackie a esse critério, tão opaco que cobre tudo, tão vago que se confunde, tão imediato que se nutre de instantes, pedaços, e, sobretudo, de mesclas impossíveis”.

Bom, creio que a atitude é importante. Profundidade/intensidade sempre, e sentido de humor sempre. As duas coisas juntas são invencíveis, porque aprofundar é uma vertigem prazerosa e o humor é uma coisa muito séria. Do it de Jerry Rubin saiu como primeiro livro porque a atitude tem que ser essa, a dos Yuppies… Talvez um traço comum pudesse ser a Cultura Pop. Mas, claro, Pop entendido como os estudos sobre Cultura Pop nos EUA, não como o “Pop” da revista “Super Pop”. Para mim, El tutu, de 1891, é indiscutivelmente Pop. E Jardiel Poncela, como não. Todo o novo humor espanhol vem daí. O pós-humor, que dizem. E vejo em De la Serna elementos de Wes Anderson, e penso que se Ramón vivesse hoje seria um ídolo, e eu gosto de pensar. E bom, os Simpson, os Yippies, Brautigan, Everett (EELS), Warhole Herzog, claro. Por aí entrevejo uma linha.

Tem sido muito comentado o uso que Blackie Books faz das redes sociais.

Aprendi muito da minha experiência com o grupo de música. Quando o criamos, o disco como tal já estava quase morto. Dávamos de presente o demo nos shows e marcávamos nosso Myspace como ponto de encontro. Quando fizemos o primeiro videoclipe, marcamos no Myspace um local e uma hora, publicamos um pequeno vídeo com uma coreografia e pedimos a quem quisesse que aprendesse a coreografia e viesse fantasiado de “futuro”. Resumindo, temos aprendido a nutrir-nos do feedback permanente com gente desconhecida. E Facebook para nós é isso: não um espaço para chorar ou queixar-se, não um espaço egoísta para dizer o quão mal estamos, mas um local para compartilhar. Permite explicar a muitas pessoas o que fazemos e obter facilmente ecos e respostas, estar atento ao que preocupa ou move quem nos lê. Eu já não saberia estar sem um rebote constante. Os outros não têm que decidir, mas tudo pode ajudar: inclusive existe um livro que temos corrigido coletivamente. Minha experiência como músico compartilhando coisas com um público X faz funcionar dessa maneira: eu sou meu público. O trabalho do editor é um constante por-se ao lado do público. O livro tem que me agradar muito em primeiro lugar para depois sair. E isso se funciona uma vez, funcionará sempre.

Muitas outras editoras tem se lançado agora às redes sociais.

Sim, porém a maioria não as entende. Pensam que é um canal para a publicidade, para a promoção. Mas não é isso. Eu posso falar no Facebook de um livro nosso, porém também posso expor uma canção, por a frase de um futebolista ou uma piada de Chiquito de la Calzada. É o prazer de compartilhar. Não se trata de outro canal para manipular e vender, mas de uma sensibilidade. Através das redes sociais mostramos que uma empresa não é um mecanismo impessoal, mas que existem pessoas reais por trás dela, editando os livros. Pessoas reais que gostam de coisas muito diferentes: o Barça, Chiquito de la Calzada, Jerry Rubin ou Platão. Pondo voz e rosto em alguns conteúdos, isso importa muito. Porque no final você confia mais em Ana ou Juan do que numa marca.

E qual é sua relação com a grande imprensa?

Nas redes sociais nos sentimos livres para empregar espontaneamente nosso tom mais íntimo e vital: o humor, a ironia, o humor negro, inclusive. Não temos a mesma liberdade na relação com os suplementos culturais, que, em geral, são muito sérios e chatos. E como não queremos limitar-nos a esperar com ansiedade que saiam resenhas de nossos livros na imprensa, buscamos a comunicação direta com os leitores nas redes sociais. Confiamos inclusive em que contribuam, ao longo do tempo, para reconfigurar as relações com os jornalistas, tornando-as menos dependentes.

Como anda economicamente Blackie Books?

Bem, falo de uma experiência pequena de nove livros, mas que está funcionando. Nós também fazemos isso para ganhar dinheiro. Não é um capricho ou uma proposta solidária. Nossos pisos dependem de nossos trabalhos. Isso implica muita responsabilidade, estar muito colado no mundo e ser muito consciente de tudo isso.

Tenho verdadeira curiosidade por saber o que vai se passar com o livro digital. E ver se saímos vivos disto. Espero que todos tenhamos melhores idéias, não só no mundo do livro, mas também em outros terrenos, como o político ou a cultura em geral. Creio em minha geração e nas que vêm.

[Tradução: Blog Boca do Mangue]
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