Insurreição na Europa

(artigo de Franco Berardi “Bifo” publicado no blog Acuarela Libros, em 09/01/2011)

1. Um olhar panorâmico sobre o final da primeira década do século XXI. A esperança em Obama se dissolve e estoura a crise européia. Uma nova lógica se instala no coração da vida européia a partir da crise financeira grega: Merkel, Sarkozy e Trichet decidiram que a sociedade européia deve sacrificar seu padrão de vida atual, o sistema de educação pública, sua civilização para poder pagar as dívidas acumuladas pela elite financeira. Uma espécie de agenda se apoderou da União, reafirmando os dogmas falidos do monetarismo neoliberal: redução do custo do trabalho, cortes no gasto social, privatização do ensino, empobrecimento da vida cotidiana. Projetando a sombra de uma uma recessão a longo prazo sobre o futuro da próxima geração, a Europa se tornou uma chantagem. Enquanto o horizonte se apresenta escuro, ao mesmo tempo, no cenário europeu também se produzem eventos imprevisíveis, inquietantes e emocionantes. Vejo os cavaleiros do apocalipse e gosto do som de cavalos a galope.

2. Wikileaks mostrou a potencia da inteligência coletiva. O acontecimento orquestrado por Assange é a irradiação da força criadora do intelecto geral. A lição de Wikileaks não está tanto nos conteúdos revelados – já sabíamos que os diplomatas são pagos para mentir e os militares para disparar contra civis – quanto na ativação da solidariedade, cumplicidade e colaboração independente entre cognitarios, entre trabalhadores cognitivos de diferentes tipos: técnicos de hardware, programadores, periodistas que trabalham juntos e partilham o mesmo objetivo de desestabilizar o poder totalitário. A partir desta lição, os rebeldes encontrarão seu caminho na auto-organização do intelecto geral.

3. O intelecto geral busca um corpo. A revolta se difunde pelas ruas da Europa, desde Roma até Londres e Atenas, mas a rua não é a única linguagem deste movimento. O que está em jogo na revolta de massas de dezembro? Os rebeldes estão conscientes de que não se está preparando uma luta militar contra a polícia e o Estado. Não lhes interessa muito a polícia e o Estado. O que estão buscando é uma recomposição do corpo social e uma reativação do corpo erótico do intelecto geral. Nos últimos dez anos, a precarização, o isolamento e a competição no mercado de trabalho provocaram uma dissociação da inteligência coletiva em rede do corpo social do trabalho cognitivo. A aceleração da Infosfera (intensificação do ritmo de exploração cognitiva) tem tensionado a psicosfera social, provocando solidão, pânico, depressão, desempatia. A sensibilidade e o desejo querem recuperar seu fluxo. A primeira geração que aprendeu mais palavras de uma máquina do que de sua mãe reconstrói seu corpo nas ruas.

4. Um processo de longa duração. As lutas estudantis não são uma explosão passageira, mas o início de um longo período que marcará a próxima década, uma insurreição européia. Insurreição significa levantar-se mas também plena desdobra das potencialidades do ator. O ator que entra no cenário histórico é o intelecto geral em processo de subjetivação. A plena desdobra das potencialidades do intelecto geral vai muito além dos limites do capitalismo e implica uma reativação da sensibilidade. A sensibilidade, faculdade para compreender aquilo que não pode ser verbalizado, tem sido devastada pela precarização e pela fractalização do tempo. Para reativar a sensibilidade, a arte, a terapia e a ação política tendem a fundir-se.

O Prozac, o Ritalin, a cocaína e a competição tem produzido efeitos bipolares na economia: exuberância irracional dos mercados, pânico financeiro… e também na psicosfera social: depressão de massas, crise de pânico, epidemia de suicídios. A terapia tem sido reduzida para a reabilitação da mente deprimida pela normalidade da exploração mental.

5. A fusão entre arte e ativismo tem acentuado a inefetividade do gesto. O movimento não global da década passada era um movimento puramente ético, privado de efeitos políticos, incapaz de deter as tendências da desregulação capitalista porque não entrava na esfera da vida cotidiana e se limitava à denúncia ética e à ação simbólica. O artevismo tem interiorizado a ineficácia e a transformação da ação em pura denúncia.

No melhor dos casos, a arte da década passada foi fenomenologia do sofrimento mental. Penso em artistas como Lisa Athila, Jonatahan Franzen, Melinda July, Gus Van Sant, Kim ki Duk, que puseram em cena o corpo social fragmentado e a frenética percepção do tempo induzida pela precariedade.

O sofrimento psíquico é a principal área de contato entre arte e ação social no momento em que o intelecto geral busca um corpo. Os rebeldes de hoje estão pondo em marcha uma ação poética e auto-terapêutica. Estão recompondo a empatia dos corpos, redescobrindo uma esfera comum de sensibilidade.

6. Acabou o cinismo. No centro da insurreição atual há uma forte motivação ética. Não penso numa ética fundada em “valores”, que não sei o que são. Penso na ética em termos materialistas, hedonistas e sensuais, como respeito de si mesmo e amor por si mesmo. A esfera conceitual da estética deve redefinir a esfera ética. O cinismo de massas, que segundo Sloterdjick era o sentimento predominante no pós-68, está fora de curso pois já não traz benefícios. As massas aceitavam a tristeza do cinismo e da auto-submissão às humilhantes regras do poder quando este garantia a renda mensal. Porém, hoje, o cinismo é atribuição apenas da classe dominante e cada vez permeia menos a cultura de massas. A classe cínica perdeu seu glamour. Feios, asquerosos, repugnantes são aqueles que estão nos postos de comando das finanças, da política, da economia, desde o ponto de vista da nova geração. É um juízo estético, antes que qualquer outra coisa. A escolha ética se baseia no prazer de si; não em valores universais, mas no prazer da singularidade. Uma percepção distinta da riqueza, como gozo de si e não como aquisição, está fazendo seu caminho na sensibilidade, antes que na consciência.

7. Depois da Europa. A patologia financeira tem devastado o corpo e a alma da sociedade européia, de modo que agora a Europa é um zumbi. O movimento do trabalho cognitivo insurgente assume a tarefa de inventar uma nova Europa, emancipada dos dogmas da competição e da acumulação. A Europa renascerá graças à aparição do corpo social e erótico do intelecto geral, graças a insurreição da inteligência sensual do movimento. A Europa poderá ser então um lugar de solidariedade e de beleza.

19 de Dezembro de 2010

[Tradução: Blog Boca do Mangue]

Bifo é autor de “El sabio, el mercader, el guerrero – Del rechazo del trabajo al surgimiento del cognitariado”, um livro onde analisa a história moderna como a história do conflito e das alianças entre três figuras: o sábio, portador da inteligência acumulada em infinitos gestos de produção, criação e reflexão; o mercador, que converte os produtos da inteligência humana em mercadoria; e o guerreiro, expressão da violência que regula a relação entre  inteligência e mercadoria, entre saber e técnica.

Também publicou em castelhano: La fábrica de la infelicidad (Traficantes de Sueños, Madrid, 2003), Telestreet: máquina imaginativa no homologada (El Viejo Topo, Barcelona, 2004). El Viejo Topo lhe dedicou um dossiê completo em seu número 203 (fevereiro/2005)

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