“Queremos construir um discurso comum”

Entrevista com Claudia Bernardi, do ativista do movimento estudantil italiano, realizada pelo jornal Periodico Diagonal, em 28/01/2011. A tradução é do Blog Boca do Mangue.

DIAGONAL: Por que os jovens italianos estão se rebelando agora? Quais são os aspectos comuns entre o movimento de 2008 e este?

CLAUDIA BERNARDI – Tem havido um grande conflito de mentalidade nos dois últimos anos. O processo de maturação desde a Onda Anómala [movimento estudantil de 2008] até 2010 tem sido constante. Nós que levamos dois anos nos mobilizando nas universidades temos percebido uma maturidade crescente que tem emergido publicamente depois dos fatos do 14 de dezembro em Roma. Esta maturidade tem a  ver com a constatação das próprias condições de vida desde um ponto de vista individual. Deixou-se de pedir a família, que na Itália é o maior dispositivo de bem-estar, que nos arranca da crise. A questão do futuro e a necessidade de se reapropriar dele, tem sido um dos pilares das mobilizações deste último ano. A Onda Anómala se caracterizava por uma composição fundamentalmente estudantil que atendia aos problemas da universidade. Em 2010, com o desmantelamento da universidade pública e a drástica redução do financiamento, o desemprego, o acelerar da crise, o fato de que as expectativas dos jovens em âmbitos como o da pesquisa não sejam cumpridas, tem levado os estudantes a preocupar-se por realidades sociais “externas” à universidade. Porém, todas elas apontam a necessidade de se reapropriar do futuro.

DIAGONAL: Continuará sendo uma luta dentro da universidade ou tende a estender-se por toda a sociedade?

CLAUDIA BERNARDI – Bem, as últimas mobilizações tem dado já alguma indicação a respeito disso. Tem que se trabalhar na recomposição de alianças sociais de caráter real que não sirvam apenas para convocar uma manifestação, mas também para construir um trajeto no qual se vinculem os sindicatos, as associações e comitês para construir um discurso comum. Tradicionalmente, o trabalho com os sindicatos tem se construído em torno da convocatória de manifestações e é aí que surgem os problemas.

Agora, estamos tentando construir um discurso comum. Nesta linha, continuamos chamando à mobilização, faremos seminários de autoformação, possivelmente convocaremos mais mobilizações nos próximos meses e é possível que inclusive a CGIL [principal sindicato italiano] convoque uma greve geral. A maior parte de nossas forças estão centradas agora em criar alianças sociais e dar ênfase na necessidade de nos apropriarmos do nosso futuro. Não podemos nos esquecer das lutas geradas dentro da universidade, compreender e possibilitar novos dispositivos de sabotagem e novas formas de organização no meio estudantil. Ao longo desses meses, o objetivo será o de criar um novo espaço com os pesquisadores.

DIAGONAL: Em que consiste a proposta do Movimento de Autoreforma da Universidade?

CLAUDIA BERNARDIExistem três linhas fundamentais. A primeira surge com a questão do direito ao estudo, ao financiamento do ensino e a autoformação, ou seja, a criação de dispositivos de sabotagem dentro da própria universidade. Em segundo lugar, encontra-se a questão do welfare [políticas de bem-estar] e da renda, tanto direta quanto indireta, temática central dentro do movimento. Em Roma, por exemplo, as habitações custam em torno de500 euros por mês, cifras exorbitantes que quase ninguém pode pagar. É aqui que o fato de se reapropriar do futuro ganha sentido, pois não só neste âmbito, mas também em outros como, por exemplo, no acesso à cultura, no acesso ao teatro ou poder realizar espetáculos públicos

Por último, a terceira linha incide sobre como fazemos para trabalhar com os pesquisadores universitários, que são os que dão a vida pela universidade. Com esta aliança, pretendemos buscar os mecanismos para construir juntos um espaço de pesquisa que seja autônomo, potencializar a criação e o estabelecimento de universidades autônomas que sejam capazes de construir outro saber que não esteja vinculado nem aos lobbys empresariais  nem as castas da máfia dos professores universitários. Europa como terreno comum.

DIAGONAL – Quais são as possibilidades de coordenação no nível europeu?

CLÁUDIA BERNARDIEm primeiro lugar, acredito que para poder trabalhar na escala européia primeiro temos que identificar quem trabalha nas universidades construindo movimento nos diferentes países. Nos últimos dois anos estão se unindo ao movimento pesquisadores e precários, e creio que esse é um bom ponto de convergência. Ou seja, movimentos que com diferentes temporalidades conseguem se encontrar. Neste sentido, creio que o discurso europeu necessita tempo para maturar, não devemos acelerar demasiado os tempos. Acredito que os experimentos e os precedentes de movimentos que aconteceram nos últimos anos em escala européia, têm abusado de um calendário baseado na convocação para uma contestação localizada num país; tem-se abusado do modelo da contra-cúpula.

Na Europa, coexistem diferentes temporalidades, não só nas lutas, mas também nos calendários de aplicação do processo de Bolonha. Signos que mostram diferentes composições universitárias, de diferentes técnicas didáticas e de formação nas Universidades. Nesta situação, é fundamental criar um discurso de sedimentação comum orientado ao médio e longo prazo e não criado ex profeso em função de cada convocação de contra-cúpula. Sobre isso, é necessário construir encontros onde as diferentes realidades do movimento, os estudantes, os pesquisadores que trabalham e se mobilizam dentro da universidade, se encontrem para compartilhar e criar um projeto comum.

 

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