“Os Estados Unidos seguem sua cartilha habitual”

(entrevista publicada no jornal Pagina/12, Buenos Aires, Argentina, em 06/02/2011. A tradução é do blog Boca do Mangue)
Por Amy Goodman

Nas últimas semanas, os levantes populares no mundo árabe conseguiram a saída do ditador tunisiano Zine El Abidine Ben Alí, a iminente queda do regime de Hosni Mubarak, um novo governo na Jordânia e o compromisso do ditador iemenita de deixar o poder quando terminar seu mandato. O professor Noam Chomsky analisou o que significa isso para o futuro do Oriente Médio e da política exterior dos Estados Unidos para a região.

Qual é a sua análise sobre o que está acontecendo e como pode repercutir no Oriente Médio?

─ Em primeiro lugar, o que está se passando é espetacular. A coragem, a determinação e o compromisso dos manifestantes são dignos de destaque. E, aconteça o que acontecer, esses são momentos que não se esquece e que seguramente terão conseqüências a posteriori: constrangeram à polícia, tomaram a praça Tahrir e estão ficando ali apesar dos grupos mafiosos de Mubarak. O governo organizou esses bandos para expulsar os manifestantes ou para gerar uma situação na qual o exército possa dizer que teve que intervir para restaurar a ordem e depois, talvez, instalar algum governo militar. É muito difícil predizer o que vai acontecer.

Os Estados Unidos estão seguindo sua cartilha habitual. Tem acontecido muitas vezes quando um ditador “próximo” perdeu o controle ou esteve em perigo de fazê-lo. Há uma rotina padrão: seguir apoiando-o tanto tempo quanto se possa; quando se torna insustentável – especialmente, se o exército muda de lado – , dar um giro de 180 graus e dizer que sempre estiveram do lado das pessoas, apagar o passado e depois fazer todas as manobras necessárias para restaurar o velho sistema mas com um novo nome. Presumo que isso é o que está acontecendo agora. Estão vendo se Mubarak cai. Se não agüentar, colocarão em prática a cartilha.

─ Qual sua opinião sobre o apelo de Obama para que se inicie a transição no Egito?

─ Cuidadosamente, Obama não disse nada. Mubarak também estaria de acordo que se deve fazer uma transição ordenada. Um novo gabinete, alguns arranjos menores na ordem constitucional não é nada. Está fazendo o que os líderes norteamericanos geralmente fazem.

Os Estados Unidos têm um poder esmagador ali. O Egito é o segundo país que mais ajuda militar e econômica recebe de Washington. Israel está em primeiro lugar. O mesmo Obama se mostrou muito a favor de Mubarak. No famoso discurso no Cairo, o presidente americano disse: “Mubarak é um bom homem. Tem feito coisas boas. Manteve a estabilidade. Seguiremos lhe apoiando porque é um amigo”.

Mubarak é um dos ditadores mais brutais do mundo. Não sei como depois disso alguém possa ter levado a sério os comentários de Obama sobre os direitos humanos. Mas o apoio tem sido muito grande. Os aviões que estão sobrevoando a praça Tahrir são de americanos. Os Estados Unidos são o principal apoio do regime egípcio. Não é como na Tunísia, onde o principal apoio vinha da França. Os Estados Unidos são os principais culpados no Egito e também Israel, que junto com a Arábia Saudita foram quem deram apoio ao regime do Cairo. De fato, os israelenses estavam furiosos porque Obama não sustentou mais firmemente ao seu amigo Mubarak.

─ O que significam todas essas revoltas no mundo árabe?

─ Esse é o levante regional mais surpreendente que tenho lembrança. Por vezes, o comparam com a Europa do Leste, mas não é contrastável. Ninguém sabe a que levarão esses levantes. Os problemas pelos quais os manifestantes protestam são de longa data e não vão se resolver facilmente. Há uma pobreza tremenda, repressão, falta de democracia e também de desenvolvimento. O Egito e outros países da região recentemente passaram pelo período neoliberal, que trouxe crescimento nos papéis junto com as conseqüências habituais: uma alta concentração da riqueza e dos privilégios, um empobrecimento e uma paralisia da maioria da população. E isso não se muda facilmente.

─ Você crê que existe alguma relação direta entre esses levantes e as filtragens de Wikileaks?

─ Na realidade, a questão é que Wikileaks não nos diz nada de novo. Confirmou nossas razoáveis conjecturas.

─ O quê acontecerá com a Jordânia?

─ Na Jordânia, recentemente mudaram o primeiro ministro. Foi substituído por um ex-general que parece ser moderadamente popular, ou pelo menos não é tão odiado pela população. Porém, essencialmente, não mudou nada.

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